Confiram abaixo uma entrevista com Rodrigo Amarante, feita por um site português, sobre a turnê Européia.
Entrevista a Los Hermanos: Tropicalistas Urbanos do Século XXI
Pedro Trigueiro
Os Los Hermanos regressaram a Portugal para uma curta-digressão conjunta com os Toranja. Consolidada uma extensa manta de fãs em solo brasileiro, o grupo aposta em mais uma apresentação ao público português. Um dos principais compositores do grupo, Rodrigo Amarante, interrompeu o seu dia de folga para uma entrevista ao Diário Digital. Confessou novas amizades, materializadas em discos e livros, e uma paixão por determinada frase de um poeta conhecido da música portuguesa, Manuel Cruz. «Por querer mais do que a vida, sou a sombra do que eu sou e ao fim não toquei em nada, Do que em mim tocou» cruzou-se o músico e este com nomes como Alfredo Marceneiro, Camané e Carlos Paredes. Perceves, ameijoas, francesinhas, e a degustação de Vinho do Porto, todo o tipo de vinho possível e em grande quantidade constituiram parte integrante de uma semana que se tornou uma sensação.
A digressão conjunta com os Toranja resultou em algo mais do que uma parceria de estrada. «Houve uma afinidade grande, mais até em termos de personalidade» confessou o músico antes de registar as diferenças entre actuar perante um público mais conhecedor (Brasil) e uma plateia menos familiarizada (Portugal). Ou como «Começar de Novo»...
«Isso é para nós é muito diferente do que temos no Brasil. Tem um efeito muito positivo na banda. Passamos a ouvir a nossa música de forma diferente. Não havendo um público que está ali exaltado e a celebrar a música. Há uma situação de apresentação da música que é como se estivesse a tocar e cantar pela primeira vez. Isso me leva a olhar para as próprias músicas de uma forma diferente. Quero que seja compreendido o que foi escrito e toda a delicadeza. Isso é um exercício muito interessante. Não só a sensação de começar de novo e rever a nossa música. Apresentar um repertório que é inédito sem hierarquia ou cronologia. Isso é como rever tudo».
As reacções portuguesas a um grupo menos imediato. Um conjunto de músicos que obriga a uma espiral de interesse do interessado.
«A plateia é bastante diferente. É menos dada. Tem um comprometimento maior no sentido em que está ali prestando atenção e ouvindo, tentando envolver-se e não vai entregar-se na primeira explosão de luzes que houver. Até porque no nosso concerto não há explosão de luzes (risos). Somos um pouco contra esses artifícios. No começo dos concertos as pessoas estão atentas, com a cara um pouco franzida. Com o decorrer do espectáculo os músculos faciais vão-se relaxando. As pessoas entregam-se. Não é uma histeria como estamos acostumados. Mas dá para ver que gostaram. As nossas músicas são muito diversas no nosso repertório e numa hora entram músicas de vários géneros diferentes. O concerto começa bem calmo (músicas do último disco) depois vai ocupando espaço e tendo uma dinâmica.
A espiral sugou do outro lado do Atlântico. O rectângulo nacional reage lentamente a uma entidade artística que quase obriga a uma não-reacção. A necessidade de uma«lacuna» sugestiva.
«O processo de absorção no nosso caso leva algum tempo. Não que seja a nossa intenção. Existem diversos discos que tenho que me envolver com eles. Certas obras são ao princípio intrigantes. O que se chama de estranhamento. Mas também existe noutras formas de arte. Coisas que têm uma lacuna muito grande. Toda a obra de arte deve ter uma lacuna. É justamente o espaço que uma pessoa vai preencher. Um espaço que uma pessoa preenche com a imaginação ou experiência ou o que vier do inconsciente. Acontece esse fenómeno quando uma pessoa está apaixonada e ouve uma música na rádio e tem a impressão que aquela música foi escrita para ela. É um exemplo bobo, mas é esse espaço a ser preenchido. Na literatura acontece algo semelhante. Assim como quando se observa um quadro várias vezes e ele revela-se sempre com algo de novo. O olhar é que determina a obra. Tem uma frase do Tom Zé «tou-te explicando para confundir, tou-te confundindo para te esclarecer»...
Tom Zé... Tropicalismo... Juntamente com Moreno Veloso, Domenico e Kassin, os Los Hermanos estão envolvidos numa nova abordagem a registos e fórmulas balizadas entre a pop e todo um Brasil imenso e suas idiossincrasias. Uma espécie de Tropicalistas Urbanos do séc. XXI...
«Não diria isso mas adoro a ideia. Mas isso que acontece entre nós e outras bandas não se configura a algo racional ou intencional. Talvez pelo senso de humor do carioca não se levar tão a sério. Para falar das coisas mais importantes da vida, de grandes questões universais, é preciso muito senso de humor».
Artistas criteriosos. Com um gosto específico, bem como a sua forma de estar. Entre a arrogância crítica e a genialidade visível.
«Já fui tachado a coisas como arrogante, chato ou ranzinza. É justamente por isso que me preocupo com quem é que falo, a quem dou entrevista. Não tenho como controlar o que você está achando sobre o que estou a dizer. A única coisa que posso dizer é o que penso. Há pessoas que não estão interessadas em conversar. Se me preocupar demais com o que as pessoas pensam de mim acabo virando uma almofadinha morna. E as minhas opiniões não costumam ser muito mornas. Nos concertos não falamos muito. Boa-noite e música».
A votação para o prêmio Multishow de Música Brasileira já está no ar. Não deixe de contribuir para que os hermanos estejam na lista dos indicados. Clique aqui para votar. Quem quiser pode seguir o modelo de votação.
Los Hermanos no FM Hall, na torre do Shopping Rio Sul, no Rio de Janeiro. Foi um show fechado para convidados e sorteados de duas rádios, Paradiso e Jovem Pan. Tive a sorte de estar presente a mais este evento hermânico. O repertório não contou com músicas do primeiro disco. Do Bloco: Retrato Pra Iáiá e Casa Pré-Fabricada. Do Ventura: O Vencedor, Último Romance, Cara Estranho, Além Do Que Se Vê. Do 4: Dois Barcos, Primeiro Andar, Fez-Se Mar, Os Pássaros, Morena, O Vento, Sapato Novo. Uma observação: apesar de contar na platéia com um público bom, havia muitos curiosos com o som da banda e muitas "patricinhas" que se multiplicavam com seus gritos a la Beatles berrando: Lindo! Este direcionado ao Ruivo...
postado por: DANIEL DA COSTA JUNIOR 20:15 ::. Fórum .::
Quinta-feira, Março 02, 2006
Assista: Depoimento do Amarante
Confira abaixo o depoimento de Rodrigo Amarante, no programa 'Ensaio', da TV Cultura.