Jornal de Notícias, Porto
Los Hermanos "A arte reflecte o espectador"
Quarteto carioca apresenta-se hoje, às 22 horas, em Castelo Branco, e domingo, às 21 horas, no Armazém F, em Lisboa mJN entrevistou os dois Rodrigos da banda, o Barba, baterista, e o Amarante, vocalista e guitarrista

Marco Grieco

O Brasil é uma terra fértil. Que o digam as produtoras de eventos em Portugal, que este ano resolveram abarrotar todos os espaços com tudo o que venha do outro la-do do Atlântico... Mas há que separar o trigo do joio e descobrir verdadeiras jóias no meio desse palheiro. Los Hermanos estão neste escalão e comprovam que a simplicidade, por vezes, é a maior ar-ma para aproximar-se do sucesso:
[JN] – "Anna Julia", presente no disco de estreia, deve ter sido a música mais tocada no Brasil em 1999. De que forma isso mudou a vida da banda?
[Rodrigo Barba] – Foi uma mudança radical... Estávamos na faculdade. De repente, passámos a ter 22 apresentações por mês! Foi uma loucura. Largámos a faculdade e passámos a fazer aquilo que mais gostamos, que é tocar. Tocamos muito, pelo país inteiro,durante quatro meses... Já queriam matar-nos porque não nos suportavam mais... (risos)
O novo disco – "Ventura" – traz novas pistas, com referências ao samba e à bossa nova. A música pesada está abandonada de vez?
[RB] – Repetimos o processo de elaboração do disco anterior – "Bloco do eu sozinho" –, mas não pensámos muito nisso. Na verdade, o peso ainda está lá, mas de outra forma... meio escondido na melodia, na letra...
Apesar da constante mudança e mescla de estilos, uma coisa não muda: as letras continuam a falar de amor...
[Rodrigo Barba] – Acho que o Marcelo e o Rodrigo (Amarante) sentem-se mais à vontade, mais sinceros, falando sobre o amor. Da ma- neira deles, é um protesto contra a maneira como as pessoas se relacionam hoje em dia...
O novo álbum traz a música "Cara estranho". Há uma identificação com essa 'personagem'?
[RB] – Não nos inserimos em nenhum grupo determinado... O "ca-ra estranho" não é mais do que uma pessoa normal.
Há sempre um tom algo deprimido nos temas da banda...
[Rodrigo Amarante] – Deprimido? (risos) Pode parecer "deprimido" porque hoje em dia não se escreve sobre o que realmente importa. As canções costumam ser sobre coisas banais, superficiais... Nós escrevemos com muita pessoalidade, sobre aquilo que sentimos... Isso pode deprimir uma pessoa, se ela identificar-se com o que cantamos...
É uma questão de interpretação, então... (risos)
[RA] – Essa é a grande riqueza da música... Parafraseando Oscar Wilde, creio que "a arte não reflecte a vida, ela reflecte o espectador". Na obra de arte, seja ela qual for, deve haver sempre uma lacuna a ser preenchida por aquele que a interpreta...
O meu maior prémio, como compositor, é alguém dizer-me: "a letra da sua música fala exactamente sobre a minha vida". É óptimo...